
Reino Do Amanhã (DC De Bolso)
202519 de set. de 2026Se eu pudesse descrever Reino do Amanhã em uma frase, provavelmente diria: os deuses da modernidade estão mortos, levando ao anseio do homem pelo retorno de um passado ilusório; este desejo, porém, leva ao conflito que o consumirá... com bonecos, é claro, isso deixa tudo mais divertido. Em um mundo onde os ídolos que moldaram a história foram esquecidos, o presente se vê governado pela anarquia e depravação, obrigando o maior herói de todos a emergir de seu refúgio, sendo o único capaz de trazer a esperança de volta à humanidade — ou aquele responsável pelo seu inevitável fim. Ao longo da história, Mark Waid faz um excelente trabalho em explorar este futuro distópico, abordando diferentes heróis clássicos da DC Comics, pondo-os em estados que, embora muito distantes dos valores que outrora seguiram, ainda soa coerente com suas personas originais, não faltando com criatividade para retratá-los de maneira única nesta realidade — gosto como há pequenos detalhes que revelam mais de cada herói a cada página, como Flash estando reunindo com os Jovens Titãs, o que revela sua identidade como Wally West —, com destaque para quatro figuras: Batman, Superman, Mulher Maravilha e Shazam. Sob a perspectiva de Norman McCay, a história se aprofunda no conflito entre os super-heróis e a humanidade, questionando quem deveria tomar as rédeas da história humana. O roteiro é inteligente ao, mesmo após estabelecer a dicotomia entre os super's e homens, ainda apresentar divergências ideológicas nos diferentes lados, impedindo que o conflito descambe em mero maniqueísmo durante a progressão narrativa. Superman, o homem do amanhã, desiludido com o progresso, se tornando um reacionário que busca métodos autoritários para implementar a moralidade, é provavelmente a mais influente desconstrução do herói, mas ouso dizer que nenhuma adaptação posterior tenha sido capaz de replicar o que aqui foi feito. Mesmo seu controverso romance com Diana parece ter propósito de caracteriza-lo como distante da humanidade, sendo esta uma versão que perdeu seu vínculo com nossa raça (sua identidade); em paralelo ao kryptoniano, temos Bruce Wayne, que, por sua vez, abandonou seu lado heroico e idealista. Conforme a história progride, acompanhada pelas visões apocalípticas sob a perspectiva de Norman McCay, uma peça chave é introduzida, como uma inicial incógnita, mas logo revelando seu papel nesta trama: Billy Batson, o Capitão Marvel. Sendo um ser humano e, simultaneamente, 𝙨𝙪𝙥𝙚𝙧-humano, representando a síntese do conflito central, e igualmente sendo a resposta ao dilema entre os melhores do mundo. Não posso, de forma alguma, deixar de mencionar a arte deslumbrante de Alex Ross, assim como não posso esconder minha relação agridoce com esta. Embora o talento com iluminação e realismo de Ross seja impecável, seu estilo não casa tão bem com a arte sequencial, carecendo de movimento e contraste em muitos dos quadros, resultando na difícil compreensão visual em alguns momentos. Mas, ainda assim, valorizo como em muitos momentos ela consegue usar de todo seu potencial para expressar a grandeza desses heróis, transmitindo uma aparência messiânica e, ao mesmo tempo, atemorizante. Tinha maiores expectativas quanto o final do quadrinho, confesso. Mesmo após tantas ameaças fatalistas durante os quatro capítulos, a conclusão acaba por retomar o bom e velho status-quo, não apresentando grandes consequências além da morte de poucos figurantes pouco trabalhados (cof, cof, Lanterna Verde, cof, cof). Falando em personagens mal trabalhados, o tratamento de Waid à Diana me desapontou, pois, ao contrário dos demais membros da trindade, sua desconstrução a tornou uma caricatura de guerreira sem ambição na história além de ser a extremista que grita aos quatro ventos e age de maneira irracional somente para ser refutada pelo Batman ou Superman — triste padrão que viria a se repetir inúmeras e inúmeras vezes nas obras realizadas pela DC... Enfim, Reino do Amanhã é um dos maiores gibis do século passado, e faz jus ao título. O legado dessa obra é imensurável, e o vemos, não atoa, impactando as histórias consequentes até os dias de hoje. Provavelmente a melhor desconstrução do universo DC.




