
Hera Venenosa
202319 de set. de 2026Hera Venenosa #1 é um manifesto. Visualmente, é psicodélico e deslumbrante na medida certa. A arte abusa da quase insanidade da personagem para ilustrar o mundo sob seus olhos, distorcendo cores, formas e quadros de maneira delicada e amplamente abstrata. A realidade não precisa parecer objetiva porque estamos vendo o mundo através de Hera. E o resultado é simplesmente sensacional. A escrita acompanha essa proposta. É linda, poética e cativante, repleta de uma sensação constante de que existe algo transbordando para além daquilo que está efetivamente sendo mostrado. Há muito mais em cada página, florescendo entre as camadas do papel, permeando a história, projetando para a luz algo muito maior. Mais pensamentos, mais sentimentos, mais mundo. É como se a história estivesse sempre prestes a ultrapassar os limites dos próprios quadros. Hera Venenosa #1 não parece querer apenas contar uma história. Parece querer lembrar que ainda há vida para ser vivida, mesmo quando tudo ao redor parece estar morrendo. Que talvez exista alguma beleza em continuar apesar de não haver garantias. Apesar de o futuro ser incerto, apesar de não sabermos o que haverá depois. Existe uma espécie de esperança quase primitiva na forma como a história olha para a vida: a vontade de acreditar que alguma coisa ainda pode florescer, que alguma coisa ainda pode nascer de nós, mesmo quando não conseguimos enxergar o que virá. Afinal, e se valer a pena plantar aquela árvore? Não a floresta inteira. Não o mundo. Aquela árvore. Só aquela.






