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Hera Venenosa

Hera Venenosa

202319 de set. de 2026

Hera Venenosa #1 é um manifesto. Visualmente, é psicodélico e deslumbrante na medida certa. A arte abusa da quase insanidade da personagem para ilustrar o mundo sob seus olhos, distorcendo cores, formas e quadros de maneira delicada e amplamente abstrata. A realidade não precisa parecer objetiva porque estamos vendo o mundo através de Hera. E o resultado é simplesmente sensacional. A escrita acompanha essa proposta. É linda, poética e cativante, repleta de uma sensação constante de que existe algo transbordando para além daquilo que está efetivamente sendo mostrado. Há muito mais em cada página, florescendo entre as camadas do papel, permeando a história, projetando para a luz algo muito maior. Mais pensamentos, mais sentimentos, mais mundo. É como se a história estivesse sempre prestes a ultrapassar os limites dos próprios quadros. Hera Venenosa #1 não parece querer apenas contar uma história. Parece querer lembrar que ainda há vida para ser vivida, mesmo quando tudo ao redor parece estar morrendo. Que talvez exista alguma beleza em continuar apesar de não haver garantias. Apesar de o futuro ser incerto, apesar de não sabermos o que haverá depois. Existe uma espécie de esperança quase primitiva na forma como a história olha para a vida: a vontade de acreditar que alguma coisa ainda pode florescer, que alguma coisa ainda pode nascer de nós, mesmo quando não conseguimos enxergar o que virá. Afinal, e se valer a pena plantar aquela árvore? Não a floresta inteira. Não o mundo. Aquela árvore. Só aquela.

Aves De Rapina Vol. 1

Aves De Rapina Vol. 1

202518 de set. de 2026

É uma abertura curiosa para a série. Não chega a ser nada espetacular, mas certamente tem personalidade suficiente para me deixar interessado em acompanhar o que vem pela frente. Visualmente, é um quadrinho bastante colorido, e o uso de luz e sombras funciona muito bem para criar destaques e contrastes. A iluminação ajuda a construir a presença das personagens e conversa com suas personalidades, criando diferentes pontos de atenção dentro dos quadros. Entre as quatro, Barda é quem mais se destaca. Divertida, carismática e com uma presença que naturalmente chama atenção, ela acaba roubando a cena em vários momentos. E, claro, eu amo a Arlequina. Ela é um cristal precioso e deve ser protegida. Talvez eu não seja exatamente imparcial quando o assunto é ela, mas sua presença funciona muito bem dentro dessa dinâmica. No fim, é uma estreia curiosa. A arte tem personalidade, as personagens possuem uma dinâmica interessante e há alguns bons momentos, mas a história ainda não me entregou nada particularmente marcante. É uma boa abertura, mais promissora do que extraordinária.

Mulher-Gato (2023) 07

Mulher-Gato (2023) 07

202618 de set. de 2026

Mulher-Gato Sem Limites #2 me deixou receoso. Imaginei que a segunda edição tão pouco faria jus às brilhantes decisões artísticas do primeiro volume, sexto aqui no Brasil devido à ordem pouco lógica que a Panini construiu para esse encadernado. Mas, que bom, eu estava completamente equivocado. A Selina é dessas personagens que te cativam sem que você entenda muito bem por quê. É sensual, diva, carismática e indubitavelmente dual: nem sempre na luz, nem sempre na sombra. E o roteiro não falha em fazer você cair ainda mais nas graças dela, em fazer você sentir aquilo que põe a personagem em movimento. O luto, a perda, a dor e a raiva, o amor e o desejo de viver. Selina é, sobretudo, humana. E o jeito que escolheram representar sua humanidade, através de um uso magistral de cores e quadros, amplos quando ela se sente livre, pequenos quando acuada, é, sem sombra de dúvidas, uma decisão acertada. Também é muito bem colocado o uso de estéticas diferentes para representar ambientes e momentos distintos da narrativa. Em um flashback sobre a vida de sua mãe, por exemplo, toda a página ganha uma coloração mais saturada e granulada, remetendo à textura de um filme antigo de videocassete. Não é apenas uma mudança de paleta, a própria textura da imagem parece carregar a sensação de uma memória distante, envelhecida e quase deteriorada pelo tempo. Mas pra mim, o ponto mais genial das artes está justamente na maneira como a violência, um ponto central em sua vida, é representada. Quando infligida por Selina, a violência é quase sempre apresentada através de elementos cartunescos, que remetem à futilidade de um ato corriqueiro para ela. A violência faz parte do seu dia a dia. Enquanto os outros personagens que recorrem à ela ficam em quadros mais realistas quase sempre dominados por tons de vermelho-escuro, representando sua ira e cólera, Selina permanece alheia a essa linguagem visual, exceto quando, permeada pelo luto, decide que quer machucar seus inimigos. É então que seus quadros violentos se tornam vermelhos, às vezes completamente vermelhos. Isso poderia passar despercebido aos olhos mais desatentos, mas está lá, na coloração. A alma desse quadrinho certamente está nas cores. O roteiro alcança um novo nível até então. Antes, ele não falhava em construir uma atmosfera de mistério e dúvida, mas certamente não era a história mais marcante ou memorável. Aqui, porém, que graciosidade a história ganha na condução da narrativa. Aquilo que deveria ser dito está marcado nas entrelinhas, nas decisões, nas nuances que constroem quem Selina é sem necessariamente precisar dizê-lo. E então os eventos culminam em uma traição que dói tanto que Selina prefere que todos queimem, que sofram. Selina não é um agente do caos como o morcego que sobrevoa Gotham. É uma mensageira de Deus, um agente da justiça que não a impõe de forma cega, sem analisar as consequências que isso causaria, mas que a utiliza da maneira mais precisa e derradeira disponível. Afinal, os moinhos de Deus moem lentamente, mas pequeníssima é sua moagem.

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